“Mas um velho, de aspeto venerando,
Que ficava nas praias, entre a gente,
Postos em nós os olhos, meneando
Três vezes a cabeça, descontente,
A voz pesada um pouco alevantando,
Que nós no mar ouvimos claramente,
C'um saber só de experiências feito,
Tais palavras tirou do experto peito:”
O Velho do Restelo é uma personagem introduzida por Luís de Camões entre as estrofes 94 e 104 do canto IV da sua obra Os Lusíadas.
O Velho do Restelo simboliza os pessimistas, aqueles que não acreditavam no sucesso da epopeia dos Descobrimentos Portugueses, e surge na largada da primeira expedição à Índia com avisos sobre a odisseia que estaria prestes a acontecer.
No episódio, narra-se a partida de Vasco da Gama aos mares (a saída do porto, ainda em Portugal). Um ancião (o Velho do Restelo) “põe-se então a acoimar” as viagens e os ocupantes das naus, sob o argumento de que os temerários navegadores, movidos pela cobiça de fama, glória e riquezas, procuravam desastre para si mesmos e para o povo português.
A empreitada de construção da nova sede do quartel da Associação Humanitária de Bombeiros Voluntários do Faial não se compara à epopeia dos Descobrimentos Portugueses, nem se trata de uma ação honrosa que provoque tal admiração. Mas, acreditem, algumas tormentas, mar revolto e adamastores encontrámos pelo caminho!
Ultrapassado o Cabo da Boa Esperança, primitivamente conhecido como Cabo das Tormentas, hoje convido todos a embarcarem nesta nau, a colaborarem com a Direção e o Comando do Corpo de Bombeiros no desfraldar das velas, no fixar do quadrante, alinhar o leme e, em suma, na construção de uma rota rumo ao futuro.
Creio convictamente que esta rota é a melhor para os bombeiros do Faial.
Acredito piamente que, triplicando o património da Associação e conferindo ao seu Corpo de Bombeiros melhores condições de trabalho para o exercício da missão que justifica a sua existência, estamos a honrar a memória, a respeitar a história e a perspetivar um futuro melhor.
Neste dia de Santo Inácio de Loyola, fundador da Companhia de Jesus, recordemos um dos seus ensinamentos: “Conserva, em toda a parte, a liberdade de espírito e, diante de quem quer que seja, não faças aceção de pessoas; nas situações mais opostas, conserva sempre a tal liberdade de espírito e não a percas diante de obstáculo nenhum. Nesse ponto, não desistas nunca.”
Agora, Senhoras e Senhores: mãos à obra!
UM BEM-HAJA A TODOS!
OBRIGADO.
Horta, 31 de julho de 2020.
O Presidente da Direção da AHBVF,
Dr. José Manuel Braia Ferreira
Foto: gentilmente cedida pelo Sr. José Macedo.