O Dia Municipal do Bombeiro, que simboliza o reconhecimento pelos atos dos "Soldados da Paz" em defesa do território e dos cidadãos, é assinalado no concelho da Horta, celebrando-se este ano o 16.º Dia Municipal do Bombeiro.
Num mundo cada vez mais conturbado, onde cenários de crise, difusos e de contornos pouco claros fazem já parte do nosso quotidiano, os Bombeiros têm cada vez mais sobre si a responsabilidade de responder a todas as emergências. O voluntariado está, hoje em dia, confrontado com desafios inteiramente novos, que levam a equacionar a melhor forma de garantir a continuidade da qualidade do serviço prestado.
A sociedade civil, apesar de há muito ter legitimado e reconhecido a função e o mérito do Bombeiro, nem sempre assume plenamente quanta da sua segurança e tranquilidade depende do esforço desses homens e mulheres, que não conhece, mas que sabe estarem sempre prontos para a socorrer em qualquer situação.
Neste contexto, os Corpos de Bombeiros voluntários assumem-se como uma força despojada de outros interesses que não seja o de socorrer os cidadãos, com os recursos, o espírito humanitário e a qualidade que os tornaram, por isso mesmo, também mais exigentes com o equipamento, com a formação e, consequentemente, mais preocupados com a relação com a sociedade em que se inserem.
Aquilo que inicialmente podia ser encarado como uma resposta de solidariedade para com a sociedade, transformou-se numa resposta obrigatória para com essa mesma sociedade. Os cidadãos têm o direito de ser socorridos. Assim, o gesto humanitário foi-se tornando num dever. E os deveres não se agradecem, cumprem-se.
A instituição “Bombeiros” tem, cada vez mais, grandes obrigações e responsabilidades:
Nesta sociedade muito exigente e, sobretudo, muito intransigente, a instituição “Bombeiros” só perdurará enquanto souber continuar a garantir aos cidadãos a proficiência e a qualidade técnica do seu trabalho. As instituições só perduram no tempo se merecerem a confiança e o respeito dos cidadãos e se satisfizerem, com eficácia, os propósitos para que foram constituídas.
É nesta confiança e neste respeito que reside a força e a determinação do Bombeiro português, cujo lema “Vida por Vida” reflete a magnitude da sua nobre missão. Missão que é global e transversal, que é respondida com elevado grau de prontidão, desde as solicitações de carácter emergente de proteção e socorro, às ações de prevenção e combate em cenários de incêndios, acidentes graves e catástrofes ou noutras missões no âmbito da Proteção Civil e socorro. Os sucessos nunca são individuais, mas sim ganhos conjuntos, conseguidos através de um esforço concertado, só possível graças a uma permanente partilha de informações, de conhecimentos e de responsabilidades.
O Bombeiro do futuro terá de ser, consequentemente, um técnico especializado, com preocupações centradas na criação e manutenção de uma cultura de prevenção e proteção, na ligação de proximidade com a população, na intervenção em ambiente pré-hospitalar, no combate a incêndios e outros desastres, onde continuará a ter um papel decisivo.
Terá uma forte sensibilidade e dará prioridade absoluta à sua segurança e autoproteção, mas também à cooperação, conceito maior no relacionamento entre organizações diferenciadas, já que o esforço contínuo nesta área terá sempre como primeiro objetivo a preservação da vida e de um património que a todos pertence.
Mas gostaria de alertar para o facto de ninguém ter as valências todas. Todos são necessários, ninguém é dispensável. Todos são importantes. Todos têm o seu papel na emergência. É tudo uma questão de organização.
O trabalho integrado e o planeamento unificado são fatores críticos de sucesso. A sistematização dos métodos de trabalho e a unidade de comando e controlo operacional, a par com a recolha e gestão da informação e a elevada capacidade de antecipação e reação, são condições determinantes para se obterem resultados positivos e motivadores.
Hoje, como ontem, mas principalmente amanhã, o objetivo é, e será sempre, o de, com lealdade e trabalho, com firmeza e discrição, com persistência e dedicação e com empenhamento constante, especialmente em situações de emergência, servir os Açores e Portugal e os Açorianos e os Portugueses na preservação da vida, do ambiente e de um património que é de todos.
Estamos, sem dúvida, num tempo de oportunidade, em que as instituições de Bombeiros têm definitivamente de se abrir à mudança. Este é o tempo de abrir as portas à motivação e ao entusiasmo, rumo ao “Bombeiro do Futuro”.
A ideia de só nos ocuparmos com a resolução dos problemas quotidianos de um Corpo de Bombeiros e dos seus operacionais não nos leva a lado nenhum… é preciso tempo, disponibilidade, saber, definição de objetivos, visão, estratégia.
Esta é a oportunidade de lançar, por exemplo, a geração de Bombeiros melhor formada e preparada de sempre.
Esta é a oportunidade de fazermos com que os jovens deixem de olhar para os Bombeiros como uma forma de passar o tempo, contribuindo somente para a prestação de serviços de forma irregular e desprendida.
Esta é a oportunidade de alterarmos os comportamentos, as atitudes, de acreditarmos nas ideias, nos projetos, nos valores, de contratarmos paixão.
Esta é a oportunidade de acreditarmos, de termos vontade, de evidenciarmos uma atitude positiva, em vez da obsessiva postura de autoflagelação que, muitas vezes, demonstramos.
Os desafios atuais, e o “Bombeiro do Futuro”, exigem uma verdadeira e qualificada resposta de socorro com:
De forma a alcançarmos um sistema capaz de aprender, um sistema que consiga criar, adquirir, interpretar, transferir e reter conhecimento… em suma, estar permanentemente recetivo a incorporar novos saberes e novas ideias.
Um sistema capaz de avaliar, refletir e decidir com mais racionalidade e com menos emotividade.
Um sistema capaz de fortalecer a atitude e a cooperação, desenvolver a colaboração e a integração e ampliar a capacidade da organização de socorro.
A natureza da missão de proteção e socorro às populações não se compadece com uma mera perspetiva “administrativista” ou “burocrática” do sistema. As reformas exigem visão estratégica e vontade de mudança, que não se compadecem com pequenos ajustes, mas antes com o recurso a modificações importantes.
Porque não é Bombeiro quem quer: mas quem quer e pode!
E voluntário só em dois momentos: para entrar e para sair do Corpo de Bombeiros!
Bem hajam!
Obrigado.
Horta, 14 de maio de 2017.
O Presidente da Direção da AHBVF,
Dr. José Manuel Braia Ferreira
Foto: gentilmente cedida por José Macedo.