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Discurso proferido pelo Sr. Presidente da Direção da AHBVF na Sessão Comemorativa do 16.º Dia Municipal do Bombeiro

Comemorações • Domingo, 14 de Maio de 2017

O Dia Municipal do Bombeiro, que simboliza o reconhecimento pelos atos dos "Soldados da Paz" em defesa do território e dos cidadãos, é assinalado no concelho da Horta, celebrando-se este ano o 16.º Dia Municipal do Bombeiro.

Num mundo cada vez mais conturbado, onde cenários de crise, difusos e de contornos pouco claros fazem já parte do nosso quotidiano, os Bombeiros têm cada vez mais sobre si a responsabilidade de responder a todas as emergências. O voluntariado está, hoje em dia, confrontado com desafios inteiramente novos, que levam a equacionar a melhor forma de garantir a continuidade da qualidade do serviço prestado.

A sociedade civil, apesar de há muito ter legitimado e reconhecido a função e o mérito do Bombeiro, nem sempre assume plenamente quanta da sua segurança e tranquilidade depende do esforço desses homens e mulheres, que não conhece, mas que sabe estarem sempre prontos para a socorrer em qualquer situação.

Neste contexto, os Corpos de Bombeiros voluntários assumem-se como uma força despojada de outros interesses que não seja o de socorrer os cidadãos, com os recursos, o espírito humanitário e a qualidade que os tornaram, por isso mesmo, também mais exigentes com o equipamento, com a formação e, consequentemente, mais preocupados com a relação com a sociedade em que se inserem.

Aquilo que inicialmente podia ser encarado como uma resposta de solidariedade para com a sociedade, transformou-se numa resposta obrigatória para com essa mesma sociedade. Os cidadãos têm o direito de ser socorridos. Assim, o gesto humanitário foi-se tornando num dever. E os deveres não se agradecem, cumprem-se.

A instituição “Bombeiros” tem, cada vez mais, grandes obrigações e responsabilidades:

  • A primeira, e desde logo, para com ela própria, renovando-se a todos os níveis, simplificando a sua organização, criando um verdadeiro espírito de classe, cultivando uma imagem pública credível, respeitável e de qualidade, sabendo modernizar-se rápida, mas tranquilamente. E modernizar, apesar de alguns mal-entendidos, não é subverter, mas sim responsabilizar;
  • A segunda para com a sociedade, ouvindo e sentindo o seu pulsar, as suas necessidades, informando, socorrendo e participando no futuro, como agente especializado na proteção das comunidades;
  • A terceira, percebendo que o mundo está a mudar todos os dias. Que estamos perante um mundo em convulsão, com novas ameaças, novas realidades de origens diversas, impensáveis há uma dezena de anos, que nos trazem novos desafios, novas preocupações, outras formas de encarar o futuro e que nos obrigam a novas formas de cooperação e de organização;
  • A quarta, permitindo criar as condições de trabalho em que se consegue a mudança, consciente e participada, no sentido da melhoria da gestão das emergências e da eficácia do socorro.

Nesta sociedade muito exigente e, sobretudo, muito intransigente, a instituição “Bombeiros” só perdurará enquanto souber continuar a garantir aos cidadãos a proficiência e a qualidade técnica do seu trabalho. As instituições só perduram no tempo se merecerem a confiança e o respeito dos cidadãos e se satisfizerem, com eficácia, os propósitos para que foram constituídas.

É nesta confiança e neste respeito que reside a força e a determinação do Bombeiro português, cujo lema “Vida por Vida” reflete a magnitude da sua nobre missão. Missão que é global e transversal, que é respondida com elevado grau de prontidão, desde as solicitações de carácter emergente de proteção e socorro, às ações de prevenção e combate em cenários de incêndios, acidentes graves e catástrofes ou noutras missões no âmbito da Proteção Civil e socorro. Os sucessos nunca são individuais, mas sim ganhos conjuntos, conseguidos através de um esforço concertado, só possível graças a uma permanente partilha de informações, de conhecimentos e de responsabilidades.

O Bombeiro do futuro terá de ser, consequentemente, um técnico especializado, com preocupações centradas na criação e manutenção de uma cultura de prevenção e proteção, na ligação de proximidade com a população, na intervenção em ambiente pré-hospitalar, no combate a incêndios e outros desastres, onde continuará a ter um papel decisivo.

Terá uma forte sensibilidade e dará prioridade absoluta à sua segurança e autoproteção, mas também à cooperação, conceito maior no relacionamento entre organizações diferenciadas, já que o esforço contínuo nesta área terá sempre como primeiro objetivo a preservação da vida e de um património que a todos pertence.

Mas gostaria de alertar para o facto de ninguém ter as valências todas. Todos são necessários, ninguém é dispensável. Todos são importantes. Todos têm o seu papel na emergência. É tudo uma questão de organização.

O trabalho integrado e o planeamento unificado são fatores críticos de sucesso. A sistematização dos métodos de trabalho e a unidade de comando e controlo operacional, a par com a recolha e gestão da informação e a elevada capacidade de antecipação e reação, são condições determinantes para se obterem resultados positivos e motivadores.

Hoje, como ontem, mas principalmente amanhã, o objetivo é, e será sempre, o de, com lealdade e trabalho, com firmeza e discrição, com persistência e dedicação e com empenhamento constante, especialmente em situações de emergência, servir os Açores e Portugal e os Açorianos e os Portugueses na preservação da vida, do ambiente e de um património que é de todos.

Estamos, sem dúvida, num tempo de oportunidade, em que as instituições de Bombeiros têm definitivamente de se abrir à mudança. Este é o tempo de abrir as portas à motivação e ao entusiasmo, rumo ao “Bombeiro do Futuro”.

A ideia de só nos ocuparmos com a resolução dos problemas quotidianos de um Corpo de Bombeiros e dos seus operacionais não nos leva a lado nenhum… é preciso tempo, disponibilidade, saber, definição de objetivos, visão, estratégia.

Esta é a oportunidade de lançar, por exemplo, a geração de Bombeiros melhor formada e preparada de sempre.

Esta é a oportunidade de fazermos com que os jovens deixem de olhar para os Bombeiros como uma forma de passar o tempo, contribuindo somente para a prestação de serviços de forma irregular e desprendida.

Esta é a oportunidade de alterarmos os comportamentos, as atitudes, de acreditarmos nas ideias, nos projetos, nos valores, de contratarmos paixão.

Esta é a oportunidade de acreditarmos, de termos vontade, de evidenciarmos uma atitude positiva, em vez da obsessiva postura de autoflagelação que, muitas vezes, demonstramos.

Os desafios atuais, e o “Bombeiro do Futuro”, exigem uma verdadeira e qualificada resposta de socorro com:

  • Mentalidade inovadora;
  • Apetência para nos comprometermos em novos processos;
  • Cooperação alargada e desinteressada;
  • Rigor, exigência e excelência.

De forma a alcançarmos um sistema capaz de aprender, um sistema que consiga criar, adquirir, interpretar, transferir e reter conhecimento… em suma, estar permanentemente recetivo a incorporar novos saberes e novas ideias.

Um sistema capaz de avaliar, refletir e decidir com mais racionalidade e com menos emotividade.

Um sistema capaz de fortalecer a atitude e a cooperação, desenvolver a colaboração e a integração e ampliar a capacidade da organização de socorro.

A natureza da missão de proteção e socorro às populações não se compadece com uma mera perspetiva “administrativista” ou “burocrática” do sistema. As reformas exigem visão estratégica e vontade de mudança, que não se compadecem com pequenos ajustes, mas antes com o recurso a modificações importantes.

Porque não é Bombeiro quem quer: mas quem quer e pode!

E voluntário só em dois momentos: para entrar e para sair do Corpo de Bombeiros!

Bem hajam!

Obrigado.

Horta, 14 de maio de 2017.

O Presidente da Direção da AHBVF,

Dr. José Manuel Braia Ferreira

Foto: gentilmente cedida por José Macedo.